A tal bio.

Muito escrevo eu sobre a minha vida para quem tem uma vida tão pouco interessante. Parece-me óbvio que preciso de sair mais.

As bios são sempre um problema. Bastava escrever uma, não era? Mas de cada vez que me pedem uma pequena biografia para um livro ou evento em que vá participar, o texto anterior nunca me parece adequado. Ou está demasiado sério, ou demasiado longo, ou demasiado irrelevante, ou demasiado condescendente.

A auto-promoção necessária para sobreviver como freelancer tem muitas rasteiras. É fácil escorregar na falsa modéstia ou aterrar no exibicionismo. A objectividade é complicada, mas há que tentar.

A minha última tentativa  está aqui, e é uma versão encurtada do testamento pretensioso que escrevi da última vez. Seguirá o seu destino na companhia da imagem acima, um même que pede aos artistas que se retratem com os conteúdos da sua mala e com uma lista do que se gosta e que se detesta.

E agora vou ali tentar ser um bocadinho menos egocêntrica e já volto.

 

 

Oddity

highlands

E lá está. Vem o ano novo e fico logo com ganas de começar coisas novas. Não são bem resoluções, que essas começo sempre assim que me lembro delas, sem esperar pelo dia 1 de Janeiro, que é um péssimo dia para iniciar dietas, poupanças, arrumações, exercício, e coisas que tais.

Em 2010, um destes projectos vingou. Para o daily metro sketch, eu tirava fotografias clandestinas do passageiro de metro à minha frente no caminho para o estúdio, e depois desenhava-o à vista a partir da imagem. Era um exercício bastante demorado e, por isso, assim que o trabalho apertou, foi colocado em stand by.

Este ano vou simplificar as coisas. O meu exercício diário vai ser algo rápido e descomprometido, que já faço com alguma regularidade, mas que nunca viu a luz do dia.

Não sou grande fotógrafa, nem tenho pretensões de o ser, mas sou uma fotógrafa compulsiva. Para mim a fotografia é um modo de me relacionar visualmente com o que me rodeia, de contrariar a tendência que tenho para me alhear de tudo e de me obrigar a tomar atenção e não passar ao lado de coisas interessantes por causa da minha constante distracção.

Guardo todas as fotografias que tiro, boas ou más, e estão meticulosamente organizadas numa drive externa, sempre acessível. De cada vez que lá mergulho com a desculpa de procurar uma imagem específica para usar, acabo por me perder na nostalgia das imagens antigas. É uma espécie de diário, com viagens, festas, passeios, encontros, momentos, sítios, pessoas, muitas que já nem fazem parte da minha vida, ou que estão apenas diferentes.

Ocasionalmente, pego numa dessas imagens e brinco com ela no photoshop. Experimento filtros, mudo as tonalidades, a saturação, o contraste, sobreponho, desconstruo, escortanho, restauro, elimino. Posso estar horas com a mesma imagem, de resultado em resultado, sem nunca gravar ou usar a imagem final. É apenas um aquecimento, um exercício sem objectivo nenhum que não seja o explorar a minha  principal ferramenta de trabalho, o photoshop, ou eliminar um eventual bloqueio criativo.

redondo

A partir de hoje será assim: fazer do exercício um workout diário rápido e começar a coleccionar e mostrar o resultado num tumblr. Sem pretensões artísticas, sem grandes conceitos ou reflexões por trás das imagens, sem classificações ou temas. Apenas fotografias escolhidas da minha caixinha digital, isoladas ou combinadas, muito ou pouco editadas, só porque sim, porque me apetece, porque me deu para ali. No fundo é pegar num diário e transformá-lo num outro.

trees

A visitar e seguir em thestarslookverydifferent.tumblr.com

 

Literalmente sem bateria

Twingo sem bateria

Queria começar este post pela seguinte nota: faz-me comichão que se use mal a expressão “literalmente”. (Também me irrita um bocadinho que se encha um texto de aspas para indicar algo em sentido figurado, como se o leitor não fosse suficientemente inteligente para perceber quando alguma coisa não é literal, mas é assunto para outro post).

– Estou literalmente morta de cansaço! – juro que ouvi isto a alguém que não era nem um zombie nem um fantasma. Queridas pessoas que gostam de exagerar, por favor, escolham outro advérbio.

Este pequeno disclaimer é para salientar antes de mais que conheço perfeitamente o significado de “literalmente”, e que desta vez não fiquei sem bateria por deixar as luzes do carro acesas, ou por ter ficado um mês sem lhe pegar – tudo coisas mais que plausíveis para quem me conhece.

Fiquei literalmente sem bateria. Também fiquei literalmente sem auto-rádio. Gatunos!

Literalmente gatunos.

Domingo

Era uma vez um domingo. Manhã passada a fazer uma sobremesa para o almoço em família. Almoço em família. Tarde em casa para escrever um texto atrasado, fazer um esboço para um amigo, um logotipo para outro amigo e acabar um gráfico prometido a uma associação com que colaboro. São 22h30 e ainda não fiz nada disso, e no entanto ainda não saí da frente do computador.

Não foi tudo tempo perdido, por muito que tenha feito refresh nas estatísticas do Café Patita, para ver se já foi listado em mais algum site de food porn. De aquecimento ligado, enrolada em cobertores, cachecóis e gatas (chiça, que está frio!), fui pondo as séries em dia com o iPad a servir de televisão, e aproveitei para explorar alguns recantos interessantes da internet.

E agora faço aqui uma lista das minhas distrações de hoje, para que possam beneficiar – distraír, antes – mais alguém. (Quem estou eu a enganar? Quase ninguém lê este blog que hiberna por temporadas desmesuradas e já partilhei isto tudo no Facebook hoje à tarde. E ninguém ligou. Estou mesmo só a procrastinar mais um bocadinho. É Domingo, bolas!)

Metamundus

Metamundus
Belíssimas ilustrações de moda e de comida a guache/aguarela, com boas fotos de receitas à mistura. Fiquei fascinada com a senhora Meta Wraber. Quando crescer quero ser como ela. Também tropecei nos sites da Camilla Engman e da Keri Smith e gostei do trabalho.

The Animalarium

The Animalarium
Um blogue que colecciona ilustração de animais, organizado em posts temáticos. Este ainda ficou por explorar, merece tempo e irá aos poucos.

Today and Tomorrow

Today and Tomorrow
Uma selecção viciante de artigos interessantes, não tenho coragem de fechar a janela do browser até chegar ao fim de todos os posts. Vai ficar ali a chamar-me para uma pausa de vez em quando. O que é mau. Mas o blogue é muito bom.

Once Upon

Once Upon
Um dos muitos links engraçados que encontrei via Today and Tomorrow, Once Upon é um projecto de Olia Lialina e Dragan Espenshied onde se criaram versões 1997 das redes sociais Google+, YouTube e Facebook. Os mais novos não vão perceber.

e.m-bed.de/d
Ainda via Today and Tomorrow, um video que transcende a sua janela de YouTube, e que através de alguma programação inteligente, controla as janelas do browser para criar um efeito espectacular. Firefox ou Chrome recomendados.

E nenhum Domingo ficaria completo sem um video de gatos. Este é o Tard, o gato mal disposto dos memes do 9gag.

E entre escrever o post, procurar links, distrair-me com o 9gag e o pinterest, tirar as gatas de cima do trackpad e ir à cozinha comer qualquer coisa que que me arrependo logo a seguir, dou por mim em Segunda-feira. Domingo encerrado. Yay! Ao trabalho!

 

Skinny Jeans

20120718-184427.jpg

Obrigada, GAP, por perceberem que, mesmo em Paris, onde todas as gajas são elegantes e sofisticadas, nem todas ficam apresentáveis naquelas calças de pernas ultra- finas a que se deu o nome de “skinny”, que fazem os traseiros mais bem nutridos parecerem gigantes e desproporcionados.

Obrigada, GAP, por serem uma das poucas lojas que decidiu não ignorar todas as mulheres com rabiosque um bocadinho mais volumoso, colocando à venda um modelo de calças de ganga confortável, bem proporcionado e que nos fica bem.

E sobretudo, obrigada, GAP, por não terem baptizado esse modelo de “fatty”.

PS. Quando é que abrem uma loja em Lisboa?

Era uma vez um site

Volto sempre de férias com uma certa sensação de ano novo, de recomeço. Encho-me de resoluções como se fosse 1 de Janeiro, fazer dieta, voltar ao ginásio, cortar nos gastos, deitar fora a tralha a mais.

Curiosamente, sem que tivesse feito por isso, o primeiro dia de regresso foi mesmo um dia de reviravoltas, em que alguns planos foram engavetados e novos planos viram luz. E nesse espírito fénix de deitar tudo abaixo para começar tudo de novo, decidi que estava na hora de apagar todo o conteúdo do meu site patriciafurtado.net e recomeçar!

Não foi nada assim.

Estava eu a mexer nas bases de dados para recuperar um post neste blog, que tinha sido substituído — por engano — por um rascunho incompleto, quando vi uma base de dados que já não estava a ser usada e decidi apagá-la. Preciso de contar o resto da história, ou já se adivinha? Decidi apagar uma base de dados inútil e — por engano — apaguei a que estava por cima. A do meu site pincipal. Com todo o meu portfólio.

Já não é a primeira vez que destruo acidentalmente o meu site. Dessa vez foram os ficheiros que definem o design, o conteúdo ficara intacto. E tive a sorte de, passado uns dias de desespero, perceber onde tinha um backup e restaurar tudo devidamente. Desta vez, foi mesmo o conteúdo todo que se evaporou com um clique (dois cliques, se contarmos com aquela caixa de diálogo “tem a certeza?”, que aprovei sem pensar duas vezes). E o backup — que havia — não estava em condições, e não foi possível restaurá-lo. Coisa esperta.

No entanto, o infeliz acidente deu-se na altura certa. Estava mesmo um pouco farta do site, que me parecia já pesado e pouco inspirado. Em vez de ficar a arrancar cabelos e trepar às paredes, o meu estado de espírito continuou zen.

O site está em branco, e assim continuará até eu ter tempo de pensar em algo para ali. Sem pressas.

 

Au revoir, Paris!

Estou de volta. Foi uma semana fantástica, e exactamente o que eu estava a precisar: cansar o corpinho e descansar a cabeça.

Eram sete da manhã já estava a pé, pronta para começar a trabalhar. (Não estranhem, já são oito pela hora de Paris. Ai este jetlag!) (Pronto, pronto, não é jetlag nenhum, sou daquelas pessoas que se levanta mais cedo em férias do que em dias de trabalho, daqui a uma semana já vou estar em horário normal.)

Venham projectos chatos, maus pagadores, deadlines, problemas informáticos, venham todas essas pragas relacionadas com o trabalho, a ver se conseguem afectar a minha boa disposição! Bring it on! (Mais uma vez, daqui a uma semana já deve voltar a minha rabugice habitual.)

Só tenho uma perguntinha a fazer… Quem ligou o forno?

20120717-082803.jpg

Papa-museus

Ontem foi dia de aproveitar o tempo chuvoso e enfiar-me debaixo de alguns tectos interessantes.

Comecei o dia em Bercy, no edifício de Frank Ghery projectou para a Cinemateca Francesa. Vi a extraordinária exposição de Tim Burton, que tinha estado previamente no MoMa em Nova Yorque, e como bónus pude ainda visitar o Museu do Cinema, uma pequena exposição de objectos míticos dos inícios do cinema, com cartazes, figurinos, cenários, maquetes, projectores e outras máquinas curiosas. Curiosamente, um desenho original de Georges Meliès levou-me de volta à exposição de Tim Burton.
20120714-100728.jpg20120714-100758.jpg20120714-100832.jpg

À tarde, foi a vez de me dirigir ao maravilhoso Museu Rodin, um museu que me faltava visitar, e que é tão bonito como tinha imaginado. Felizmente, chuva acalmou um pouco, e também me deixou aproveitar bem o jardim.

20120714-101044.jpg

20120714-101110.jpg

20120714-101131.jpg

20120714-101154.jpg

20120714-101214.jpg

Para acabar o dia, procurei refúgio num pequeno museu do consumo: as Galeries Lafayette. Valeu a pena a visita, senão por algumas compritas, pela espectacular clarabóia, e pela vista dos telhados de Paris que temos bo último andar. Tive a sorte de estar lá em cima quando passaram cinco aviões a deixar rastros coloridos pelo céu, numa pequena previsão das comemorações de hoje.

Mais logo, há fogo de artificio!

20120714-101307.jpg

20120714-101334.jpg

People are strange…

Quando era pequena, costumava acompanhar a minha avó Lena ao cemitério. Enquanto ela limpava e arranjava as flores nas campas dos meus bisavós, eu gostava de passear entre as outras campas, ler os nomes e epitáfios gravados no mármore, ver as fotografias debotadas em molduras de latão, observar as flores, algumas frescas, muitas já murchas. A avó Lena, que dizia muitas vezes “Quando eu morrer…”, nesses dias perguntava sempre “… vens cá por flores na campa da avó?” Na verdade, nunca o fiz. Está bem viva no meu coração e dispenso ir a um sítio que só me lembra que já cá não está.

Menos sentido faz para mim, por isso, visitar o túmulo de alguém famoso e nunca, nas minhas vindas a Paris, me tinha sequer lembrado de visitar o Père Lachaise. Até hoje.

Sabia, claro, que não ia encontrar o cenário kitsch do cemitério da Lourinha. Tinha visualizado algo parecido com os cemitérios ingleses que conhecia, com as suas campas de pedra simples e corroídas pelo tempo, rodeadas de relva, despojados e arejados. Mas os parisienses fazem tudo em grande, e o cemitério do Père Lachaise, embora igualmente sossegado, é muitíssimo mais impressionante do que poderia ter imaginado.

É uma autêntica cidade dos mortos que se estende pela colina, com pequenas ruas e pracetas de traçado irregular, com placas toponímicas, para a qual se vendem mapas à entrada. Nos quarteirões numerados acumulam-se, com uma incrível densidade, as campas e túmulos de pedra cinzenta e frondosas árvores que filtram a luz deixando passar pequenos raios divinos de sol e trazem a esta cidade fantasma a aura mágica de uma floresta encantada. Encantada mas cheia de turistas em busca de celebridades mortas.

20120712-233920.jpg20120712-233936.jpg20120712-233945.jpg

O que mais me impressionou foi o nível de detalhe dos túmulos. Se alguns não passam de singelas campas cobertas de musgo, muitos são maravilhas arquitectónicas, miniaturas de igrejas com arcos em ogiva, colunas gregas, gárgulas, anjos, frisos e outros adornos de alvenaria intricada, manchados pelo musgo e a humidade. A riqueza dos pormenores mostra-se ainda nas portas ferrugentas de padrões rendilhados, nas estátuas e medalhões de metal com verdete e na delicada tipografia que grava os nomes de famílias há muito esquecidas.

20120712-234030.jpg

20120712-234050.jpg

20120712-234104.jpg

20120712-234138.jpg

20120712-234304.jpg

20120712-234319.jpg

20120712-234326.jpg

20120712-234421.jpg

À entrada consulta-se um mapa numerado, e a lista de clientes é verdadeiramente impressionante. Entre muitas, muitas outras personalidades importantes, lá descansam os ossos de Molière e La Fontaine (os primeiros a ser levados para lá, numa jogada de marketing claramente vencedora), Balzac, Chopin, Meliès, Edith Piaf, Maria Callas, Oscar Wilde e, claro, Jim Morrisson. A maioria destes não estão assinalados e, mais ou menos elaborados, misturam-se com todos ou outros. Os dois últimos destacam-se, no entanto, por serem alvo de mais atenção.

20120712-234433.jpg

20120712-234501.jpg

Oscar Wilde está no topo da colina, numa zona mais recente e organizada onde, na sua maioria, as campas são de pedra polida como um balcão de cozinha com letras douradas. (Caso sejam de uma família chinesa – há algumas, – estão ornamentadas com fotografias e vasos de flores de plástico de cores garridas.) Esta zona superior, nascida de um dos vários acrescentos ao cemitério, já não tem o encanto da zona mais antiga. As modernices não ficam nada bem à morte. O túmulo de Wilde, uma escultura Art Deco da autoria de Jacob Epstein, costumava ser o alvo de uma estranha tradição: os seus admiradores beijavam-na com os lábios pintados de vermelho, e estava assim coberta de marcas de batom. Em 1992, os responsáveis do cemitério, decidiram restaurar o túmulo e instalar uma barreira de vidro a toda a volta, esquecendo-se de que o que há mais por aí são canetas que escrevem em vidro. O resultado é uma estátua rodeada de um muro de vidro que, de tão vandalizada com corações e mensagens de amor, parece o interior de uma casa de banho pública e que, por ter pouco mais de dois metros de altura, ainda permite a alguns fãs mais motivados encavalitarem-se para a beijar. Com uma localização tão pouco nobre e a camada de graffiti adolescente, os ossos do elegante Wilde andam a dar as proverbiais voltas no túmulo. e eu saí dali muito desapontada.

Já a campa de Jim Morrisson, o residente que mais visitantes atrai ao cemitério (para desconforto dos familiares de algumas não-celebridades que também ali descansam), é digna de uma estrela de rock. Está na zona mais antiga, é uma campa pequena e discreta, mas para a proteger do vandalismo recorrente, está rodeada por banais barreiras de metal, daquelas que se usam nos concertos e tem segurança permanente. Não foi preciso procurar o túmulo do vocalista dos Doors, bastou apenas seguir o fluxo dos turistas munidos do precioso mapa. Os miúdos que, encostados à barreira, lamentavam a sua perda com emoção, não eram sequer nascidos quando o cantor morreu, há mais de 40 anos.

20120712-234711.jpg

Afinal

20120711-102841.jpg

Parece que sempre vou passear para um cemitério. É o que dá acordar muito cedo e achar que o tempo vai continuar miserável o dia todo!

Noutras notícias, ontem, no mercado, comprei um lenço de pescoço, às bolinhas, muito giro. Tristemente, ontem perdi um lenço de pescoço, às bolinhas, muito giro. Não tinha sido muito caro, mas considerando que só me durou um dia, barato é que não foi!