Medalha de ouro

Carlos Lopes

As férias grandes da minha infância foram todas passadas na Casa da Praia, uma vivenda alugada na Praia da Areia Branca. Dias felizes com o irmão, os pais e os avós por perto, em que íamos à praia, andávamos de bicicleta, brincávamos com os miúdos da vizinhança, mascarávamo-nos com as roupas velhas do baú da D. Júlia, pintávamos a manta com uma liberdade que hoje já não temos coragem de dar aos putos.

A 12 de Agosto de 1984, há exactamente 30 anos, o meu pai passou o dia inteiro na pesca, sem se lembrar dos seus 12 anos de casado. Amuada, a minha mãe ficou na sala a ver os jogos olímpicos pela noite dentro.

Deviam ser umas quatro ou cinco da manhã quando nos foi acordar. O Carlos Lopes estava prestes a ganhar a maratona em Los Angeles.

Uma das memórias mais antigas que possuo, a imagem dessa noite ficou permanentemente gravada na minha cabeça, com todos os pormenores. Se um dia chegar a velha, hei de esquecer-me de onde larguei os óculos, ou do que comi na véspera, mas ainda me lembrarei daquele momento fantástico.

Tinha 7 anos, a mesma idade que a minha sobrinha tem agora, era igualmente irrequieta e tagarela e estava numa excitação sem igual. O melhor que me podia acontecer era estar acordada fora de horas, e tudo aquilo me parecia épico. A Mãe e a Avó Lena e eu, agarradas à televisão, assistíamos em directo ao que nos parecia, na altura, um pequeno milagre: um português a ganhar uma maratona — a Maratona — do outro lado do mundo, onde ainda era de dia. A nossa bandeira nas mãos de Carlos Lopes, que continuava a correr apesar de já ter cortado a meta. Que emoção!

30 anos depois, o meu pai nunca mais se esqueceu do aniversário do casamento. Porque a minha mãe faz questão de falar na data todos os anos, com dias de antecedência, para evitar dissabores. Segredos de um casamento feliz com 42 anos.

Parabéns, meus queridos.

Orlando e Teresa( A foto é de 71, um ano antes de se casarem.)

 

Leave a Reply