Era uma vez um site

Volto sempre de férias com uma certa sensação de ano novo, de recomeço. Encho-me de resoluções como se fosse 1 de Janeiro, fazer dieta, voltar ao ginásio, cortar nos gastos, deitar fora a tralha a mais.

Curiosamente, sem que tivesse feito por isso, o primeiro dia de regresso foi mesmo um dia de reviravoltas, em que alguns planos foram engavetados e novos planos viram luz. E nesse espírito fénix de deitar tudo abaixo para começar tudo de novo, decidi que estava na hora de apagar todo o conteúdo do meu site patriciafurtado.net e recomeçar!

Não foi nada assim.

Estava eu a mexer nas bases de dados para recuperar um post neste blog, que tinha sido substituído — por engano — por um rascunho incompleto, quando vi uma base de dados que já não estava a ser usada e decidi apagá-la. Preciso de contar o resto da história, ou já se adivinha? Decidi apagar uma base de dados inútil e — por engano — apaguei a que estava por cima. A do meu site pincipal. Com todo o meu portfólio.

Já não é a primeira vez que destruo acidentalmente o meu site. Dessa vez foram os ficheiros que definem o design, o conteúdo ficara intacto. E tive a sorte de, passado uns dias de desespero, perceber onde tinha um backup e restaurar tudo devidamente. Desta vez, foi mesmo o conteúdo todo que se evaporou com um clique (dois cliques, se contarmos com aquela caixa de diálogo “tem a certeza?”, que aprovei sem pensar duas vezes). E o backup — que havia — não estava em condições, e não foi possível restaurá-lo. Coisa esperta.

No entanto, o infeliz acidente deu-se na altura certa. Estava mesmo um pouco farta do site, que me parecia já pesado e pouco inspirado. Em vez de ficar a arrancar cabelos e trepar às paredes, o meu estado de espírito continuou zen.

O site está em branco, e assim continuará até eu ter tempo de pensar em algo para ali. Sem pressas.

 

Au revoir, Paris!

Estou de volta. Foi uma semana fantástica, e exactamente o que eu estava a precisar: cansar o corpinho e descansar a cabeça.

Eram sete da manhã já estava a pé, pronta para começar a trabalhar. (Não estranhem, já são oito pela hora de Paris. Ai este jetlag!) (Pronto, pronto, não é jetlag nenhum, sou daquelas pessoas que se levanta mais cedo em férias do que em dias de trabalho, daqui a uma semana já vou estar em horário normal.)

Venham projectos chatos, maus pagadores, deadlines, problemas informáticos, venham todas essas pragas relacionadas com o trabalho, a ver se conseguem afectar a minha boa disposição! Bring it on! (Mais uma vez, daqui a uma semana já deve voltar a minha rabugice habitual.)

Só tenho uma perguntinha a fazer… Quem ligou o forno?

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Papa-museus

Ontem foi dia de aproveitar o tempo chuvoso e enfiar-me debaixo de alguns tectos interessantes.

Comecei o dia em Bercy, no edifício de Frank Ghery projectou para a Cinemateca Francesa. Vi a extraordinária exposição de Tim Burton, que tinha estado previamente no MoMa em Nova Yorque, e como bónus pude ainda visitar o Museu do Cinema, uma pequena exposição de objectos míticos dos inícios do cinema, com cartazes, figurinos, cenários, maquetes, projectores e outras máquinas curiosas. Curiosamente, um desenho original de Georges Meliès levou-me de volta à exposição de Tim Burton.
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À tarde, foi a vez de me dirigir ao maravilhoso Museu Rodin, um museu que me faltava visitar, e que é tão bonito como tinha imaginado. Felizmente, chuva acalmou um pouco, e também me deixou aproveitar bem o jardim.

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Para acabar o dia, procurei refúgio num pequeno museu do consumo: as Galeries Lafayette. Valeu a pena a visita, senão por algumas compritas, pela espectacular clarabóia, e pela vista dos telhados de Paris que temos bo último andar. Tive a sorte de estar lá em cima quando passaram cinco aviões a deixar rastros coloridos pelo céu, numa pequena previsão das comemorações de hoje.

Mais logo, há fogo de artificio!

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People are strange…

Quando era pequena, costumava acompanhar a minha avó Lena ao cemitério. Enquanto ela limpava e arranjava as flores nas campas dos meus bisavós, eu gostava de passear entre as outras campas, ler os nomes e epitáfios gravados no mármore, ver as fotografias debotadas em molduras de latão, observar as flores, algumas frescas, muitas já murchas. A avó Lena, que dizia muitas vezes “Quando eu morrer…”, nesses dias perguntava sempre “… vens cá por flores na campa da avó?” Na verdade, nunca o fiz. Está bem viva no meu coração e dispenso ir a um sítio que só me lembra que já cá não está.

Menos sentido faz para mim, por isso, visitar o túmulo de alguém famoso e nunca, nas minhas vindas a Paris, me tinha sequer lembrado de visitar o Père Lachaise. Até hoje.

Sabia, claro, que não ia encontrar o cenário kitsch do cemitério da Lourinha. Tinha visualizado algo parecido com os cemitérios ingleses que conhecia, com as suas campas de pedra simples e corroídas pelo tempo, rodeadas de relva, despojados e arejados. Mas os parisienses fazem tudo em grande, e o cemitério do Père Lachaise, embora igualmente sossegado, é muitíssimo mais impressionante do que poderia ter imaginado.

É uma autêntica cidade dos mortos que se estende pela colina, com pequenas ruas e pracetas de traçado irregular, com placas toponímicas, para a qual se vendem mapas à entrada. Nos quarteirões numerados acumulam-se, com uma incrível densidade, as campas e túmulos de pedra cinzenta e frondosas árvores que filtram a luz deixando passar pequenos raios divinos de sol e trazem a esta cidade fantasma a aura mágica de uma floresta encantada. Encantada mas cheia de turistas em busca de celebridades mortas.

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O que mais me impressionou foi o nível de detalhe dos túmulos. Se alguns não passam de singelas campas cobertas de musgo, muitos são maravilhas arquitectónicas, miniaturas de igrejas com arcos em ogiva, colunas gregas, gárgulas, anjos, frisos e outros adornos de alvenaria intricada, manchados pelo musgo e a humidade. A riqueza dos pormenores mostra-se ainda nas portas ferrugentas de padrões rendilhados, nas estátuas e medalhões de metal com verdete e na delicada tipografia que grava os nomes de famílias há muito esquecidas.

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À entrada consulta-se um mapa numerado, e a lista de clientes é verdadeiramente impressionante. Entre muitas, muitas outras personalidades importantes, lá descansam os ossos de Molière e La Fontaine (os primeiros a ser levados para lá, numa jogada de marketing claramente vencedora), Balzac, Chopin, Meliès, Edith Piaf, Maria Callas, Oscar Wilde e, claro, Jim Morrisson. A maioria destes não estão assinalados e, mais ou menos elaborados, misturam-se com todos ou outros. Os dois últimos destacam-se, no entanto, por serem alvo de mais atenção.

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Oscar Wilde está no topo da colina, numa zona mais recente e organizada onde, na sua maioria, as campas são de pedra polida como um balcão de cozinha com letras douradas. (Caso sejam de uma família chinesa – há algumas, – estão ornamentadas com fotografias e vasos de flores de plástico de cores garridas.) Esta zona superior, nascida de um dos vários acrescentos ao cemitério, já não tem o encanto da zona mais antiga. As modernices não ficam nada bem à morte. O túmulo de Wilde, uma escultura Art Deco da autoria de Jacob Epstein, costumava ser o alvo de uma estranha tradição: os seus admiradores beijavam-na com os lábios pintados de vermelho, e estava assim coberta de marcas de batom. Em 1992, os responsáveis do cemitério, decidiram restaurar o túmulo e instalar uma barreira de vidro a toda a volta, esquecendo-se de que o que há mais por aí são canetas que escrevem em vidro. O resultado é uma estátua rodeada de um muro de vidro que, de tão vandalizada com corações e mensagens de amor, parece o interior de uma casa de banho pública e que, por ter pouco mais de dois metros de altura, ainda permite a alguns fãs mais motivados encavalitarem-se para a beijar. Com uma localização tão pouco nobre e a camada de graffiti adolescente, os ossos do elegante Wilde andam a dar as proverbiais voltas no túmulo. e eu saí dali muito desapontada.

Já a campa de Jim Morrisson, o residente que mais visitantes atrai ao cemitério (para desconforto dos familiares de algumas não-celebridades que também ali descansam), é digna de uma estrela de rock. Está na zona mais antiga, é uma campa pequena e discreta, mas para a proteger do vandalismo recorrente, está rodeada por banais barreiras de metal, daquelas que se usam nos concertos e tem segurança permanente. Não foi preciso procurar o túmulo do vocalista dos Doors, bastou apenas seguir o fluxo dos turistas munidos do precioso mapa. Os miúdos que, encostados à barreira, lamentavam a sua perda com emoção, não eram sequer nascidos quando o cantor morreu, há mais de 40 anos.

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Afinal

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Parece que sempre vou passear para um cemitério. É o que dá acordar muito cedo e achar que o tempo vai continuar miserável o dia todo!

Noutras notícias, ontem, no mercado, comprei um lenço de pescoço, às bolinhas, muito giro. Tristemente, ontem perdi um lenço de pescoço, às bolinhas, muito giro. Não tinha sido muito caro, mas considerando que só me durou um dia, barato é que não foi!

Par Toutatis!

E pronto, lá tinha de ser, o céu, que andava com umas nuvens tão fotogénicas, lá começou a cair. Que é a maneira da natureza me dizer “Deixa-te lá de frescuras, andar quilómetros a pé e de bicicleta, sentar em parques, comer em esplanadas… Querias ir passear para o Père Lachaise, querias? Ganha juízo e vai mas é enfiar-te num museu, como toda a gente! De Metro!” E eu, toda partidinha das frescuras de andar a pé e de bicicleta (o meu corpo há meses e meses que só conhece o formato da cadeira do escritório), respondo “Tudo bem!”

Calha bem que à tarde tenho marcado um workshop de pastelaria francesa. É só decidir onde me enfiar durante a manhã…

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Nas alturas

Detesto turistas, essa praga, adorava que fossem proibidos. Menos eu, claro, eu teria uma autorização especial para turistar.

Gosto de andar pelas zonas menos obvias da cidade (se bem que, em Paris, nem essas escapam) e gostaria de até passar por local, tal é a vergonha que tenho do que os turistas fazem a uma cidade. Mas por muito que faça o ar ocupado e carrancudo dos parisienses, e chegue mesmo deixar em casa a máquina fotográfica que me denuncia, não consigo imitar o ar blasé de quem cá mora, e vai todo o caminho a olhar para o chão, porque já ali passou milhares de vezes. É tudo tão bonito, caramba, pelo menos já repararam?

Pois apesar dos meus maiores esforços para não me juntar ao grande enxame de turistas que infesta as zonas mais populares, não sou de grandes planeamentos e às vezes lá acabo por deambular inocentemente para um desses sítios. Hoje por exemplo, quando dei por mim, estava nos jardins do Louvre, sítio onde não tencionava, de todo, por os pés. E quando a vi, toda branquinha a girar ao sol, a trazer-me memórias da minha primeira viagem a Paris, não resisti a mergulhar no cliché e ir para a fila da roda gigante, ensanduichada entre famílias americanas e casalinhos em lua de mel.

Ai! O que eu não faço por um sítio alto, com vistas deslumbrantes e oportunidades fotográficas? Acho que até deixava que me carimbassem “turista” na testa.

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Mercados

Hoje foi dia de levantar antes do resto dos turistas e dar uma volta por alguns mercados locais. Passei-me pelo Marché Beauvau-St Antoine (Aligre), perto da Bastille e pelo Marché Maubert, no boulevard Saint Germain. Nada me dá mais vontade de me mudar para uma cidade do que ver aquelas bancas cheias de frutos e vegetais vistosos e bem arrumados. Imagino-me logo a levar para casa sacos cheios de comida deliciosa e preparar grandes festins.

Quem me ouvir dizer isto, pode pensar que passo a vida enfiada no Mercado de Alvalade que, não sendo tão arrumadinho e pitoresco como estes, também tem muita coisa boa para levar para casa. Mas não vou lá tantas vezes assim. Nas minhas fantasias sou muito mais Nigella do que alguma vez serei na realidade.

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Sous le ciel de Paris…

Um céu com nuvens é sempre mais bonito do que um céu limpo. Será que hoje consegue ficar tão espectacular como ontem? Por enquanto só se vê um cobertor uniforme e cinzento, mas ainda é cedo. Vai, dia 10, tenho fé em ti.

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Sentadinhos

Muito se anda em Paris. É fácil pensar que é tudo pertinho, e sem se dar por isso, fazem-se quilómetros. E depois, como não há pernas que aguentem semelhante massacre, há que parar um pouco e poisar nalgum lado. Onde quer que seja.

Consequentemente, muito se senta em Paris. As esplanadas cheias, com as cadeiras todas viradas para a rua, verdadeiras plateias para as modas que vão desfilando. Os jardins cheios, com pessoal que picnica alegremente com garrafas compradas numa mercearia de esquina. Até no chão durinho em frente ao centro Georges Pompidou há gente instalada como que na praia, recostados a admirar a estrutura geométrica do edifício.

Em Paris, qualquer sítio é bom para parar e conversar, ou ficar um bocadinho a pensar na vida. Parece que ninguém tem medo de se sujar – e não é uma cidade propriamente despoluída. Gosto disso.

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