Terra firme

De há uns tempos para cá só fico verdadeiramente feliz por estar em viagem depois de aterrar. Até lá sou rabugenta ao quadrado, e ainda bem que viajo sozinha, para não me sentir na obrigação de simular uma molécula que seja de simpatia. Sair de casa é um stress, de-que-é que-me-estou-a-esquecer, está-tudo-fechado, ai-as-horas! O aeroporto é um tédio. E depois o avião, aquele mostrengo de metal que, sei bem, é capaz de voar, mas não parece nada. Não ganhei cagaço de voar, mas, com os anos, quando a besta começa a rugir e acelerar, e levanta as patinhas do chão, há um nervosinho que se instala na barriga e me lembra que estou estatisticamente mais próxima de despencar, de cada vez que ando nisto.

Arrastar as malas pelo Metro em hora de ponta, com três paragens, escada acima, escada a baixo, (a ver se me lembro da epopeia quando andar nas compras), também não é agradável, mas quero lá saber! Já estou do outro lado, livre do aperto do avião, onde tudo é exótico e fascinante. Pelo menos tão exótico e fascinante quanto uma cidade europeia que já visitei varias vezes pode ser. E basta esta pequena mudança de ares: a mal encarada ficou para trás e agora sim, estou nas nuvens.

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Reabrem as hostilidades

Vou de férias outra vez. Dois anos seguidos? Que abuso! Depois queixo-me de quê?
Já avisei toda a gente, já que não tenho paciência para ser discreta e fingir que não estou aos pulinhos de contente.

E a estas belas horas da madrugada, depois de ter a mala feita, casa arrumada (ok, mais ou menos arrumada) e gadgets a carregar, lembrei-me de vir aqui ao blog limpar as teias de aranha e prepará-lo para as minhas fotografias e relatos. É verdade que estava ao abandono desde há mais de um ano, e que a documentação das férias passadas acabou por ficar a meio, mas chegou a hora de voltar a dar-lhe uso.

Desta vez, vou dividir-me um bocado, e colocar tudo quanto é post sobre comida (e sobretudo, pastelaria) no recém criado Blogue do Café Patita. Porquê simplificar quando se pode complificar?

Então vou ali dormir umas horinhas e já cá volto para contar de que é que me esqueci desta vez, ou porque é que quase perdi o avião, ou outra previsível peripécia. Até já!

Itália, dia 6

Depois das nossas explorações nocturnas de Ravenna, decidimos que valia a pena passar a manhã na cidade e visitar algumas igrejas e museus. Ravenna é particularmente interessante pelos seus mosaicos paleocristãos, classificados como património mundial pela UNESCO. Vimos a Basílica de Santo Apolinário o Novo, a Capela do Arcebispo, a Basílica de S. Vital e o Mausoléu de Gala Placídia.

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Como já vinha sendo hábito, antes de nos fazermos à estrada rumo a Florença, consultamos o Google Maps para escolher o caminho mais directo. E assim visto em ponto pequeno, o caminho escolhido parecia de facto o mais directo. No entanto, quando se fazia um pouco de zoom, podíamos ver que era a estrada de montanha mais torcida e retorcida que podíamos ter escolhido.

Foi o terror da Cátia, que tem uma certa fobia de alturas e precipícios, e gritou grande parte do caminho como se estivéssemos numa montanha russa interminável. Os meus tímpanos sofreram também. Mas apesar disso, e de termos demorado muito mais tempo que previsto a chegar a Florença, a vista era lindíssima e eu diverti-me imenso a guiar no nosso cinquecento por ali abaixo.

Assim que largámos os nossos tarecos no quarto do B&B, saímos, esfomeadas, em busca de alimento e recuperámos as forças na esplanada de um belíssimo restaurante grego a caminho do centro. O cansaço da viagem não foi suficiente para nos deter por ali, e ainda tivemos energia para palmilhar a cidade e ver os principais monumentos.

Era a minha terceira vez em Florença, e confesso que já não senti o mesmo encanto das vezes anteriores. Estava uma noite fabulosa e o centro estava, como sempre inundado de turistas. O comércio turístico está ali tão presente, que me senti quase num parque temático dedicado às artes. E no entanto, chegar ao final da rua e dar de caras com a gigante e maravilhosa catedral de Santa Maria dell Fiore foi, mais uma vez, emocionante.

A fachada de mármore branco, rosa e verde, decorada com um detalhe espantoso, impressiona, antes do mais, pela sua escala fora deste mundo. Ficámos por ali longos momentos, embasbacadas, hipnotizadas, pequeninas, a admirar a catedral, antes de continuarmos a nossa volta nocturna de reconhecimento da cidade e regressarmos, indescritivamente estafadas, ao nosso alojamento.

Onde é que eu ia, mesmo?

Parece então que voltei de férias e deixei o blog ao abandono, não é? Não me esqueci dele, foi apenas um interregno para me concentrar no trabalho e tentar recuperar o ritmo. É tão difícil voltar a por os pés na terra depois de andar nas nuvens durante 10 dias.

Porém, neste fim de semana esticadinho, fui obrigada a dedicar-me de novo ao webdesign, por causa de um projecto profissional, depois de meses de uma relação exclusiva com a ilustração. E já que desenferrujei o meu html, aproveite o balanço para dar uma carinha nova ao empoeirado blog. O design anterior tinha sido um template escolhido à pressa, e até parecia mal não ser eu a desenhar o meu próprio blog.

Também não gastei muito tempo com este template, admito, que o tempo é uma comodidade que escasseia muito por estes lados. Ainda nem está bem acabado, tem pontas soltas por todo o lado, mas siga. É work in progress. Deixei-me de categorias e tags, vou manter a coisa minimalista para não dar muito trabalho a manter. O diário da viagem em breve terá continuação, agora em diferido, e os posts vão voltar ao ritmo normal – afinal a minha patetice não pára (ainda no outro dia, a caminho da casa do meu irmão, subi ao oitavo andar do prédio ao lado, sem reparar que as escadas, azulejos e elevador eram completamente diferentes).

Mas a grande notícia é que o meu site principal, o patriciafurtado.net recuperou o seu design perdido no início deste blog. Sempre havia um backup. Ufa! Agora é ter tempo para uma catrefada de actualizações, e prometo que até o Recipe Book vai ter receitas novas. Ena!

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Itália, dia 5.3

Ravenna pareceu-nos desde o início uma cidade muito descontraída, talvez pela proximidade à costa. Gostámos que não estivesse cheia de turistas – em retrospectiva, agora que escrevo a partir de Florença, gostámos mesmo muito.

Demos uma volta pelo centro, sem grandes intenções de visitar monumentos ou ver algo específico, deambulando pelas ruas cheias de gente às compras, possivelmente acabadas de sair do trabalho, e muitas, muitas bicicletas. Percebemos que há um hábito muito enraizado de pedalar de um lado para o outro quando em cima das bicicletas não se vêm apenas jovens desportivos ou turistas.

Em Ravenna, jovens, adultos e idosos, casualmente vestidos ou bem aperaltados, com mais ou menos sacos e malas, todos os eles se cruzam à nossa frente e nos fazem razias e nos pregam sustos de morte, a ponto de nos sentirmos mais seguros nas ruas com carros do que nas áreas pedonais.

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Itália, dia 5.2

Saímos de Veneza em direcção a Ravenna quase perto da hora de almoço e resolvemos parar na primeira localidade que encontrámos à beira do Adriático. Na pequena vila piscatória de Chioggia, parámos numa banquinha de traquitanas, onde a Cátia comprou finalmente um chapéu de palha a um marroquino simpático chamado Ahmed. Inevitavelmente, o vendedor meteu conversa connosco, e ao descobrir que éramos portuguesas, chamou-nos de vizinhas e ofereceu-nos umas pulseiseirinhas hippies de boa sorte, que ele mesmo insistiu em colocar.

Infelizmente, o Ahmed era a única coisa simpática naquele sítio deprimente, e assim que disfrutamos da pizza deliciosa que a empregada mais mal encarada de Itália nos trouxe, fugimos dali a toda a velocidade. Ainda passamos pelas praias pindéricas ali do sítio, cheias de parques de diversões e campos de férias antes de voltarmos à estrada principal, um quê desiludidas com a costa adriática.

Quase a chegar a Ravenna, e já que a estrada paralela à costa não nos deixava ver mar nenhum, resolvemos fazer novo desvio pelas praias. Desta vez fomos dar a uma praia semi-deserta, claramente uma praia de ricos, a julgar pelo café luxuoso e cheio de sofás, onde nem nos dirigiram o olhar, de deslocadas que parecíamos. A pequena pausa para chapinhar no Adriático e enterrar os pés na areia castanha foi perfeita.

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Itália, dia 5.1

E o sol regressou a Veneza, logo no dia de ir embora. Felizmente a Cátia demora uma eternidade a arranjar-se e, depois de um pequeno almoço magistral na esplanada do hotel, ainda tive direito a uma voltinha pela zona do Dorsoduro. Foi um pouco a correr, mas ainda consegui esgueirar-me para visitar a igreja barroca de Santa Maria della Salute, e despedir-me dos canais, antes de apanharmos o vapporetto para a Piazzalle Roma, onde estava o nosso cinquecento à espera para seguir viagem.

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Itália, dia 4

Deixei para trás o Lago d’Iseo numa maratona de 4 horas de auto-estrada chuvosa, a cantar bem alto para não me deixar vencer pelo cansaço. O dia, tal como eu, estava de ressaca do casório.

A Cátia, a companheira de viagem que eu tinha abandonado na estação central de Milão, esperava-me na deliciosa Pensione Calcina. Para meter a conversa em dia sem demoras, resolvemos entregar-nos ao luxo de almoçar mesmo ali no restaurante do hotel, e a refeição que esperamos tenha sido a mais cara de toda a viagem, valeu bem a pena.

Infelizmente a chuva não parou, mas com a vontade que tinha de me perder pelos canais, não me deixei persuadir a refugiar-me num qualquer museu ou exposição. Desculpa, amiga.

Veneza é linda e encantada em todos os seus edifícios, orgulhosa da sua decadência a ponto de hotéis chiques poderem ter o estuque a cair das paredes. No entanto, o excesso de população turística torna, por vezes, as passeatas infernais. Por desconfortável que seja a chuva constante, ajuda a libertar a cidade das multidões. Restaram apenas uns resistentes, bem equipados de impermeáveis de plástico e guarda-chuvas coloridos, que devolveram às fotografias o colorido que as nuvens se encarregaram de tirar.

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Itália, dia 3

É possível que nunca tivesse ouvido falar do Lago d’Iseo se o meu amigo Tiago não se tivesse apaixonado pela Federica, italiana oriunda da pequena aldeia de Fonteno, mesmo ali ao pé. Os lagos Como e Garda, maiores e mais conhecidos, açambarcam a fama toda. E, felizmente, os turistas também.

Mas apaixonou-se e, por isso, ouço falar daquele pequeno paraíso escondido no norte de Itália há coisa de quatro anos. E se nem as fotografias fazem justiça à beleza natural do lago nem ao charme da pequena aldeia, as palavras então muito menos.

Finalmente tive uma razão indiscutível para descobrir este cantinho do mundo. O Tiago e a Federica casaram finalmente, e amigos de toda a parte juntaram-se em Fonteno para partilharem a felicidade.

O casamento foi um acontecimento épico na aldeia, os habitantes juntaram-se no adro da Igreja para assistir e felicitar os noivos, e à passagem do carro nupcial vieram para a porta da casa acenar (finalmente percebi o porquê das buzinas nos casamentos). O copo-de-água teve aquela paisagem imponente como pano de fundo, e um desfilar de pratos típicos deliciosos que parecia não ter fim. Foi perfeito.

Fotografias não bastam para descrever o sítio, mas aqui ficam algumas para dar uma vaga ideia. Quanto ao final, todos os que estiveram presentes naquele dia sabem bem como a história acaba. Viveram felizes para sempre.

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