People are strange…

Quando era pequena, costumava acompanhar a minha avó Lena ao cemitério. Enquanto ela limpava e arranjava as flores nas campas dos meus bisavós, eu gostava de passear entre as outras campas, ler os nomes e epitáfios gravados no mármore, ver as fotografias debotadas em molduras de latão, observar as flores, algumas frescas, muitas já murchas. A avó Lena, que dizia muitas vezes “Quando eu morrer…”, nesses dias perguntava sempre “… vens cá por flores na campa da avó?” Na verdade, nunca o fiz. Está bem viva no meu coração e dispenso ir a um sítio que só me lembra que já cá não está.

Menos sentido faz para mim, por isso, visitar o túmulo de alguém famoso e nunca, nas minhas vindas a Paris, me tinha sequer lembrado de visitar o Père Lachaise. Até hoje.

Sabia, claro, que não ia encontrar o cenário kitsch do cemitério da Lourinha. Tinha visualizado algo parecido com os cemitérios ingleses que conhecia, com as suas campas de pedra simples e corroídas pelo tempo, rodeadas de relva, despojados e arejados. Mas os parisienses fazem tudo em grande, e o cemitério do Père Lachaise, embora igualmente sossegado, é muitíssimo mais impressionante do que poderia ter imaginado.

É uma autêntica cidade dos mortos que se estende pela colina, com pequenas ruas e pracetas de traçado irregular, com placas toponímicas, para a qual se vendem mapas à entrada. Nos quarteirões numerados acumulam-se, com uma incrível densidade, as campas e túmulos de pedra cinzenta e frondosas árvores que filtram a luz deixando passar pequenos raios divinos de sol e trazem a esta cidade fantasma a aura mágica de uma floresta encantada. Encantada mas cheia de turistas em busca de celebridades mortas.

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O que mais me impressionou foi o nível de detalhe dos túmulos. Se alguns não passam de singelas campas cobertas de musgo, muitos são maravilhas arquitectónicas, miniaturas de igrejas com arcos em ogiva, colunas gregas, gárgulas, anjos, frisos e outros adornos de alvenaria intricada, manchados pelo musgo e a humidade. A riqueza dos pormenores mostra-se ainda nas portas ferrugentas de padrões rendilhados, nas estátuas e medalhões de metal com verdete e na delicada tipografia que grava os nomes de famílias há muito esquecidas.

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À entrada consulta-se um mapa numerado, e a lista de clientes é verdadeiramente impressionante. Entre muitas, muitas outras personalidades importantes, lá descansam os ossos de Molière e La Fontaine (os primeiros a ser levados para lá, numa jogada de marketing claramente vencedora), Balzac, Chopin, Meliès, Edith Piaf, Maria Callas, Oscar Wilde e, claro, Jim Morrisson. A maioria destes não estão assinalados e, mais ou menos elaborados, misturam-se com todos ou outros. Os dois últimos destacam-se, no entanto, por serem alvo de mais atenção.

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Oscar Wilde está no topo da colina, numa zona mais recente e organizada onde, na sua maioria, as campas são de pedra polida como um balcão de cozinha com letras douradas. (Caso sejam de uma família chinesa – há algumas, – estão ornamentadas com fotografias e vasos de flores de plástico de cores garridas.) Esta zona superior, nascida de um dos vários acrescentos ao cemitério, já não tem o encanto da zona mais antiga. As modernices não ficam nada bem à morte. O túmulo de Wilde, uma escultura Art Deco da autoria de Jacob Epstein, costumava ser o alvo de uma estranha tradição: os seus admiradores beijavam-na com os lábios pintados de vermelho, e estava assim coberta de marcas de batom. Em 1992, os responsáveis do cemitério, decidiram restaurar o túmulo e instalar uma barreira de vidro a toda a volta, esquecendo-se de que o que há mais por aí são canetas que escrevem em vidro. O resultado é uma estátua rodeada de um muro de vidro que, de tão vandalizada com corações e mensagens de amor, parece o interior de uma casa de banho pública e que, por ter pouco mais de dois metros de altura, ainda permite a alguns fãs mais motivados encavalitarem-se para a beijar. Com uma localização tão pouco nobre e a camada de graffiti adolescente, os ossos do elegante Wilde andam a dar as proverbiais voltas no túmulo. e eu saí dali muito desapontada.

Já a campa de Jim Morrisson, o residente que mais visitantes atrai ao cemitério (para desconforto dos familiares de algumas não-celebridades que também ali descansam), é digna de uma estrela de rock. Está na zona mais antiga, é uma campa pequena e discreta, mas para a proteger do vandalismo recorrente, está rodeada por banais barreiras de metal, daquelas que se usam nos concertos e tem segurança permanente. Não foi preciso procurar o túmulo do vocalista dos Doors, bastou apenas seguir o fluxo dos turistas munidos do precioso mapa. Os miúdos que, encostados à barreira, lamentavam a sua perda com emoção, não eram sequer nascidos quando o cantor morreu, há mais de 40 anos.

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